01/11/2012
É um relato pessoal de uma jovem jornalista.




Publicado em 27-Out-2012



Aos heróis anônimos da nossa geração

Sempre sonhei viver coisas grandiosas na minha vida. Ser corajosa como a geração de 68, que lutou pela democracia; audaciosa como os abolicionistas do século XVIII, que enfrentaram o preconceito e o poder dos escravocratas; destemida como os grandes guerreiros que construíram nações. Talvez até meio super-humana como os super-herois dos quadrinhos.
Possivelmente isso seja consequência de ser parte de uma geração que carrega nas costas todo o peso da cobrança por transformar a sociedade, mas que dia após dia é apontada como despreparada para tal. Uma geração que não viveu os desmandos dos Atos Institucionais repressores, nem apanhou de chibata, mas que está condicionada a reproduzir os paradigmas do neoliberalismo pela mesma sociedade que lhe cobra posturas revolucionárias.
Apesar desta contradição, sinto que faço parte de uma geração que tem uma grande contribuição histórica para oferecer ao país. E acredito na institucionalidade como forma de realizar essas transformações a que sou cobrada e por isso optei por me filiar ao Partido dos Trabalhadores.
Dia desses ouvi (óbvio que não foi pela primeira vez) que os votos do PT vêm daqueles que recebem bolsa-esmola. De pronto respondi que não se tratava de esmola e que minha família foi, durante muito tempo, beneficiária daquele programa. O rapaz voltou, me olhou nos olhos e antes que ele pudesse acrescentar alguma nova frase pronta ao seu discurso, um filme passou na minha mente. Percebi o quanto a história da minha vida poderia ter sido totalmente diferente.
Em 2000, quando o PT assumiu a prefeitura de São Paulo, eu estava no Ensino Médio e frequentava aula de teatro em um projeto social no meu bairro. Sonhava em ser famosa. Mas com minha mãe desempregada e separada, tendo que pagar aluguel, dar de comer à minha irmã pequena e sem apoio do meu pai ou do meu padrasto, estive prestes a deixar a escola para trabalhar e ajudar nas despesas da casa.
Foi quando a então Prefeita (hoje Ministra da Cultura) Marta Suplicy criou o Renda Mínima e o Bolsa Trabalho, o primeiro para que nossa família tivesse o mínimo de subsistência e o segundo para evitar que eu deixasse a escola. “Uma mixaria”, diriam os céticos da burguesia. “Evitou que passássemos fome”, eu rebato. Até então vivíamos das filas de doação de cestas básicas feitas por oportunistas que a cada eleição cobravam nosso voto. Sendo assim, posso completar: “Devolveu nossa dignidade, nossa autonomia, nossa cidadania”.
Com o governo Lula, o Renda Mínima foi integrado ao Cadastro Único do governo Federal e passamos a ser uma das 11,5 milhões de famílias beneficiárias do Bolsa-Família.
Terminei o Ensino Médio e o sonho da universidade parecia distante. Neste período começavam a ser veiculados aqueles comerciais com grandes histórias de vida e que terminavam com a frase: “Sou brasileiro, não desisto nunca”. Como aquilo mexeu comigo! Como aquele sentimento coletivo de que os tempos eram outros e de que os sonhos eram possíveis se impregnou na minha alma e me fez acreditar que o desejo de me tornar jornalista poderia se concretizar.
Um tal Fernando Haddad tornou-se ministro da Educação e criou o Programa Universidade Para Todos – Prouni. Eu tinha feito o ENEM por acaso, para tentar usar os pontos na prova da FUVEST. Estava me preparando para ir a Brasília em um protesto com os companheiros da Educafro a favor das cotas, quando o telefone tocou e fui obrigada a desfazer as malas: eu tinha ganhado a única bolsa de 100% para o curso de Jornalismo da Unisa. Chorei como só voltaria a chorar em 2010, quando vi a primeira mulher ser eleita presidenta do Brasil.
Acho que convenci o rapaz do início deste texto a votar no Haddad. Vivi, ali, um pequeno momento grandioso. Percebo agora que faço parte de uma geração de heróis: em uma década, nós transformamos a nação deste país. “Nós”, porque a grandiosidade do que está acontecendo no Brasil não poderia se obra de poucas mãos. A convicção coletiva na construção de um novo Brasil foi o eixo fundamental para a consolidação de novos paradigmas sociais, hoje tão evidentes.
Nasci na periferia, em um lugar onde o “não” é palavra recorrente. “Não pode”, “não dá”, “não vai rolar”, “não é pra nós”, “você não vai conseguir”. Quando vem alguém que te estende a mão e te diz “sim” é como se iluminassem a caverna, obrigando seus habitantes a conhecer o grandioso mundo que existe lá fora. E, ao contrário do que muitos podem afirmar, a trajetória deste texto é a regra evidente e não uma feliz exceção. Acho engraçado quando leio artigos e editoriais que comentam a alta abstenção dos eleitores, índices que aumentam a cada pleito. A graça está exatamente em observar nestes “indignados”, que tentam atribuir tal situação a uma pseudo-falência do sistema político do país, mas que na verdade é reflexa da pregação ao desestímulo no engajamento e envolvimentos em questões coletivas.
Neste domingo, ocasião do 2° turno do pleito de 2012, iremos novamente às urnas e isso não é pouca coisa. Cada urna carrega uma história de “sonhos, lágrimas, vidas e glórias”, acrescidas de doses generosas de sangue, suor e dor. Essa juventude não é “uma banda numa propaganda de refrigerante”. Somos simplesmente jovens, com vidas muito distintas e sonhos absurdamente grandes, e é por isso mesmo que não podemos deixar de acreditar no poder coletivo de cada indivíduo. Somos construtores de pequenos atos heroicos cotidianos e o voto é nosso ápice. Até domingo!
Debora Pereira é jornalista, membro do coletivo de mulheres do PT da cidade de São Paulo e coordenadora de Assuntos Institucionais da JPT-SP.

Debora Pereira


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