10/07/2014
XAOLIN TRAÇA HISTÓRICO DE LUTAS DA ROCINHA


XAOLIN TRAÇA HISTÓRICO DE LUTAS DA ROCINHA - IMAGEM 1


O líder comunitário da Rocinha Antonio Xaolin escreve em sua coluna no Favela 247 sobre o histórico de lutas contra as remoções das favelas da Zona Sul e pela inclusão social e econômica de suas populações. "Os moradores da Rocinha e de outras favelas continuaram lutando por melhorias e contra a remoção, e, com a ascensão de um governo federal progressista, as favelas reivindicaram para si o PAC das Favelas, dentro da política do Plano de Aceleração do Crescimento. A partir dessa proposta, que se tornaria realidade, a favela da Rocinha se consolida como parte integrante da cidade", afirma
10 DE JULHO DE 2014 ÀS 14:45

Por *Antonio Xaolin, para o Favela 247

A Luta por Inclusão Econômica, Social e Cultural nas Favelas

Direito à cidade: favelas como protagonistas das mudanças na cidade integrada e solidária, com geração de emprego e renda, sustentabilidade e inclusão socioprodutiva da população

20 de junho de 2013. Ao ir às ruas reivindicando melhorias nos transportes, na saúde, na educação, nas relações políticas, o povo da cidade do Rio de Janeiro, junto e misturado, integrado a um milhão de vozes por todo o país, provavelmente na multidão havia alguém com os braços erguidos e carregando um cartaz de cartolina: “Somos uma só cidade, integrada e solidária, queremos qualidade de vida para todos!”

A luta dos moradores das favelas cariocas por inclusão econômica e social é antiga. Ainda nos anos 70 do século passado a população das favelas resistia aos constantes despejos e remoções quando era retirada à força de seu território e era deslocada para lugares distantes do trabalho e das escolas.

Muitas favelas foram removidas para dar lugar a condomínios de luxo ou simplesmente a espaços de lazer. Vale lembrar que, na Zona Sul da Cidade do Rio de Janeiro, favelas como Macedo Sobrinho, Catacumba e Praia do Pinto foram riscadas do mapa por ordem expressa dos mandatários do Poder Público.

Nos anos 80 do século XX foi a vez de a Rocinha resistir aos desmandos de então. O comentário geral era que a favela ia sair porque a pressão para sua remoção era muito grande, já que “a Rocinha estava em lugar privilegiado entre a Gávea e São Conrado”, replicava a mídia uivante.

O túnel Zuzu Angel, localizado sob o maciço Dois Irmãos, abria possibilidades do desenvolvimento da Barra da Tijuca e São Conrado, e a favela da Rocinha estava no meio do caminho e atrapalhava o visual da Zona Sul. Era o mote de então para que houvesse as remoções de favelas nas áreas mais valorizadas da cidade. “Em uma localidade tão bonita os pobres não poderiam habitar porque não deveriam gozar desse privilégio”, bradavam os xenófobos ou xenofóbicos de então.

A Rocinha começa a resistir. Seus moradores promovem os primeiros mutirões quando vizinhos e lideranças formadas na luta comunitária resolvem limpar valas, varrer ruas e lutar por luz elétrica, por água tratada, por saneamento, pela canalização de valas, por mais escolas e postos de saúde, por passarela sobre a nova autoestrada Lagoa-Barra e por melhorias na qualidade de vida. Com todas essas lutas em andamento1, a Rocinha se fortalece e sua batalha ganha espaço nas manchetes dos jornais da época.

A luta contra a remoção da Rocinha se dá em torno de dois fatores importantes: a resistência dos moradores com os mutirões à frente, mostrando ao mundo que os trabalhadores podiam viver em uma favela organizada; e a vinda do Papa João Paulo II ao Rio de Janeiro. Nos bastidores, articulava-se a ida do papa a uma favela. E, depois de muita expectativa, a favela do Vidigal foi escolhida para a visita do pontífice.

A ida do papa ao Vidigal2 encerrou de vez a polêmica sobre remoção quando o Papa João de Deus declarou para o mundo: “Não vim ao Vidigal devido à sua beleza, estou aqui por causa de vocês”, dirigindo-se à multidão que assistia a missa na capela inaugurada. Ao se retirar do Vidigal, o Papa deixou seu anel como presente aos moradores e, a partir daquele instante, a Rocinha e o Vidigal foram deixadas de lado como favelas removíveis.

Mas o fantasma da remoção vai acompanhar as favelas da Zona Sul do Rio de Janeiro até meados dos anos 2000, porque alguém disse que a cidade estava partida, já que no período a cidade e a classe média sofriam com a violência dos sequestros e com o trauma da chacina de Vigário Geral3, e fortaleceu-se a politica de remoção e criminalização da pobreza, já que vários territórios tinham sido ocupados pela violência do tráfico de drogas e da polícia.

Os moradores da Rocinha e de outras favelas continuaram lutando por melhorias e contra a remoção, e, com a ascensão de um governo federal progressista, as favelas reivindicaram para si o PAC das Favelas4, dentro da política do Plano de Aceleração do Crescimento. A partir dessa proposta, que se tornaria realidade, a favela da Rocinha se consolida como parte integrante da cidade.

As lutas por melhorias na qualidade de vida são permanentes no contexto das favelas, e a Rocinha, participando ativamente dos fóruns competentes, faz com que os interlocutores atuais percebam que a favela é território de moradia de trabalhadores contribuintes, em constante transformação.

A Câmara Comunitária da Rocinha, São Conrado e Gávea, criada a partir de reuniões de comissões de moradores para acompanhamento do PAC Rocinha, sempre buscando o diálogo entre diferentes classes sociais e opiniões distintas, provoca a aproximação destes entes fomentando a composição da cidade integrada e, neste contexto, participa ativamente do Fórum Nacional, coordenado e organizado pelo ministro João Paulo dos Reis Velloso5, entusiasta da cidade integrada com a favela economicamente ativa, culturalmente respeitada e socialmente justa. E que tem como projetos prioritários aqueles que, na contextualização, apresentem meios de produção cooperativados, associativos, que possam gerar emprego, renda, sustentabilidade e que contribuam para a inclusão socioprodutiva das populações das comunidades envolvidas.

As favelas do Rio de Janeiro, com a implantação das Unidades de Polícias Pacificadoras (UPPs) e com toda opressão histórica vivida6, ao participarem e terem voz no Fórum Nacional realizado no BNDES, saem da invisibilidade e passam a ser protagonistas da própria história, e, no debate, a integração de todos vai se tornando fato quando intelectuais, Poder Público, favelados, empresas, instituições, gestores públicos e privados dialogam, formando opinião sobre a inclusão econômica e social das favelas cariocas, transformando as ideias em realidade.

Em colegiado democrático, atores importantes na formulação e prática das ideias – como Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, Banco da Providência, Arquidiocese do Rio de Janeiro, Instituto Municipal Pereira Passos (IPPRio), Secretaria Estadual de Assistência Social e Direitos Humanos do Rio de Janeiro, Fundação Osvaldo Cruz, Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro, Federação das Associações de Favelas do Estado do Rio de Janeiro, Instituto de Terras do Estado do Rio de Janeiro, Casa Civil/RJ, PAC Social, INAE-Instituto Nacional de Autos Estudos, Ação Comunitária do Brasil, Comunidade da Rocinha, Comunidade do Borel, Comunidade Pavão-Pavãozinho e Canta Galo, Comunidade Jacarezinho, Comunidade Manguinhos e Complexo do Alemão e muitos outros parceiros constantes com suas lutas silenciosas e sem alarde na grande mídia – estão contribuindo para que o Rio de Janeiro se humanize e sua economia se torne viável para todos os moradores da cidade e socialmente justa com a inclusão do povo da favela, gerando mais empregos, mais renda e sustentabilidade não só para as comunidades, mas para a “cidade inteira”.

O povo da favela sempre continuará lutando por seus direitos. A cidade passa a ser de todos quando os mesmos direitos do cidadão são compartilhados entre seus moradores, seja no centro ou na periferia. Portanto, sempre vale a pena lembrar: favela é cidade, integrada e solidária.


Referências:

1Segala, “Varal de Lembranças”, Ed. Tempo e Presença, 1983.

2Site: www.favelatemmemoria.com.br

3Ventura, “Cidade Partida”, Ed. Companhia das Letras, 1994.

4Site: www.egprio.rj.gov.br/Censo Favelas.

5Reis Velloso/Pastuk “Favela como Oportunidade/Plano de desenvolvimento de favelas para sua inclusão social e econômica”. INAE, 2013.

6Alves/Evanson, “Vivendo no Fogo Cruzado/Moradores de Favela, Traficantes de Droga e Violência Policial no Rio de Janeiro”, 2013.


*Antonio Xaolin Ferreira de Mello, 62, é morador da Rocinha e presidente da Câmara Comunitária da Rocinha, São Conrado e Gávea. Formado pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro em Mediação de Conflitos, foi presidente da Associação de Moradores da Rocinha e diretor do Sindicato dos Metroviários

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